Descubra por que Leonardo da Vinci desenhava tudo e como o hábito do sketchbook pode desenvolver observação, criatividade e pensamento visual
Quando se fala em Leonardo da Vinci, o imaginário popular logo pensa na Mona Lisa ou em A Última Ceia. No entanto, reduzir Leonardo apenas a um grande pintor é cometer uma injustiça histórica. Antes de tudo, Leonardo foi um desenhista obsessivo, alguém que enxergava o desenho não como uma habilidade artística isolada, mas como uma ferramenta essencial para compreender o mundo. Para Leonardo, desenhar era pensar.
O desenho como forma de entender a realidade
Leonardo viveu entre os séculos XV e XVI, em um período conhecido como Renascimento, quando artistas começaram a olhar novamente para a natureza, o corpo humano e a ciência com curiosidade profunda. Diferente de muitos de seus contemporâneos, Leonardo não se contentava em copiar formas externas. Ele queria entender como tudo funcionava por dentro.
Seus cadernos estão repletos de estudos anatômicos, plantas, rochas, movimentos da água, engrenagens e expressões humanas. Tudo era desenhado. Para ele, o desenho era uma linguagem universal capaz de explicar aquilo que as palavras não conseguiam. Para Leonardo, a observação era fundamental para compreender o mundo à sua volta, e o desenho era a ferramenta que tornava esse entendimento possível.
A partir dessa prática constante, fica evidente a importância do sketchbook — ou caderno de desenho — na formação de qualquer artista. Para Leonardo, o caderno não era apenas um local para desenhos acabados, mas um espaço vivo de experimentação, onde ideias eram registradas no momento em que surgiam. Anotar observações, esboçar formas, estudar movimentos ou simplesmente desenhar sem compromisso técnico ajudava a manter o olhar ativo e a mente criativa em funcionamento. O sketchbook funciona como uma extensão do pensamento do artista: quanto mais ele é utilizado, mais a criatividade se desenvolve. Ter um caderno sempre por perto permite transformar momentos cotidianos em estudo, treino e descoberta, reforçando o hábito da observação e tornando o processo artístico mais espontâneo e contínuo. Para quem deseja evoluir no desenho, cultivar esse hábito simples pode ser um dos primeiros e mais importantes passos no desenvolvimento artístico.
Anatomia: o desenho além da estética
Um dos maiores legados de Leonardo está em seus estudos do corpo humano. Ele dissecou cadáveres — algo extremamente controverso para a época — com o objetivo de entender músculos, ossos, tendões e articulações. Mas o mais importante: ele desenhava tudo com precisão extrema.
Esses estudos não tinham apenas valor artístico. Eles eram científicos. Leonardo usava o desenho como um meio de investigação. Cada traço era uma pergunta e, ao mesmo tempo, uma resposta.
Para o artista contemporâneo, isso deixa uma lição clara: o desenho realista não é só copiar uma foto, mas compreender estrutura, volume e função.
Observação: o verdadeiro treino do artista
Leonardo dizia que a natureza era a maior mestra. Ele passava horas observando o comportamento da luz, as sombras projetadas sobre os objetos e as variações sutis de forma. Seus desenhos mostram um entendimento profundo de perspectiva, profundidade e tridimensionalidade.
Diferente do ensino apressado de hoje, Leonardo defendia a observação lenta e consciente. Ele acreditava que o artista deveria treinar o olhar antes mesmo de treinar a mão.
Essa ideia continua extremamente atual, especialmente em uma época dominada por imagens prontas, filtros e inteligência artificial.
O desenho como base de todas as artes
Para Leonardo da Vinci, não existia pintura sem desenho. Ele considerava o disegno (conceito e desenho) como a base de todas as artes visuais. Pintura, escultura, arquitetura — tudo nascia do desenho.
Essa visão contrasta com a ideia moderna de que o desenho é apenas um “passo inicial” ou algo que pode ser pulado. Para Leonardo, o desenho era o centro do processo criativo, não uma etapa descartável.
Artistas que dominam o desenho conseguem:
- criar com mais liberdade
- corrigir erros com mais facilidade
- entender proporções e volumes
- evoluir tecnicamente de forma consistente
O que artistas de hoje podem aprender com Leonardo
Mesmo vivendo há mais de 500 anos, Leonardo da Vinci oferece lições extremamente relevantes para quem deseja aprender desenho hoje:
- Desenho é estudo, não talento
Leonardo não nasceu gênio. Ele treinou obsessivamente. - A base vem antes do estilo
Antes de desenvolver um traço próprio, ele dominou forma, anatomia e perspectiva. - Observar é tão importante quanto desenhar
Olhar com atenção muda completamente o resultado do desenho. - Desenhar é compreender, não copiar
O realismo verdadeiro nasce do entendimento da estrutura.
Leonardo da Vinci em tempos de inteligência artificial
Com o avanço das inteligências artificiais capazes de gerar imagens em segundos, muitos se perguntam: o desenho realista ainda faz sentido?
Leonardo provavelmente responderia que sim — e com ainda mais importância.
A IA pode gerar imagens, mas não desenvolve o olhar humano, não treina a sensibilidade nem cria compreensão profunda. O desenho continua sendo um exercício intelectual e sensorial. Ele forma o artista, não apenas a imagem final.
Nesse contexto, estudar desenho hoje é quase um ato de resistência criativa.
Se você está começando no desenho, vale a pena conhecer também nosso artigo sobre exercícios básicos para sketchbook
Conclusão
Leonardo da Vinci nos ensina que o desenho é muito mais do que técnica: é uma forma de pensar, observar e compreender o mundo. Seu legado mostra que o verdadeiro progresso artístico não vem da pressa, mas da curiosidade, da disciplina e do estudo contínuo.
Para quem deseja aprender desenho — especialmente o desenho realista — olhar para Leonardo não é olhar para o passado, mas para uma base sólida que continua válida até hoje.
Informações históricas sobre Leonardo também podem ser encontradas em acervos de museus e instituições culturais.
- https://www.louvre.fr/es
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Leonardo_da_Vinci
- https://www.britishmuseum.org/

Exercício Prático de Sketchbook: Observação Ativa
🎯 Objetivo
Treinar o olhar, a observação e a soltura do traço — não o acabamento.
🕒 Duração
15 a 20 minutos por dia
✏️ Passo a passo
- Escolha um objeto comum
Pode ser:- uma caneca
- uma chave
- um sapato
- sua própria mão
- Observe por 1 minuto
Sem desenhar ainda. Preste atenção nas formas principais, na relação de tamanhos no objeto (como largura x altura), na luz e sombra e em detalhes que você talvez nunca tivesse reparado antes. - Desenhe sem apagar
Faça um desenho rápido, solto.
👉 Não use borracha.
👉 Não se preocupe com beleza. - Repita o mesmo objeto 3 vezes
- cada desenho em 3 a 5 minutos
- cada tentativa melhora a percepção
- Anote observações ao lado
Escreva coisas como:- “a alça é mais grossa do que eu imaginava”
- “essa sombra define a forma”
- “o ângulo engana”
🧠 Por que esse exercício funciona
- Treina o olhar antes da técnica
- Cria o hábito do desenho diário
- Reduz o medo do erro
- Desenvolve consciência visual
É exatamente o tipo de prática que Leonardo da Vinci fazia em seus cadernos, usando o desenho como ferramenta de estudo e compreensão do mundo.
📌 Dica final
Não rasgue páginas.
Não julgue o resultado.
O sketchbook é processo, não portfólio.
Bom Treino!